Vejo-me triste, abandonada e só
Bem como um cão sem dono e que o procura
Mais pobre e desprezada do que Job
A caminhar na via da amargura!
Judeu Errante que a ninguém faz dó!
Minh'alma triste, dolorida, escura,
Minh'alma sem amor é cinza, é pó,
Vaga roubada ao Mar da Desventura!
Que tragédia tão funda no meu peito!...
Quanta ilusão morrendo que esvoaça!
Quanto sonho a nascer e já desfeito!
Deus! Como é triste a hora quando morre...
O instante que foge, voa, e passa...
Fiozinho d'água triste... a vida corre...
Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"
Domingo, Novembro 01, 2009
Hora que passa
Cansaço
O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Sexta-feira, Outubro 16, 2009
El Amor-José Luis Perales
Quanto a mim esta é uma das mais bonitas canções que se escreveram sobre o amor...
El Amor
Jose Luis Perales
El amor,
es una gota de agua en un cristal
es un paseo largo sin hablar
es una fruta para dos
El amor,
es un espacio en donde no hay lugar
para otra cosas que no sea amar
es algo entre tu y yo
El amor es llorar cuando nos dice adios
el amor es soñar oyendo una cancion
el amor es besar poniendo al corazon
es perdonarme tu y comprenderte yo
el amor es parar el tiempo en un reloj
es buscar un lugar donde escuchar tu voz
el amor es crear un mundo entre los dos
es perdonarme tu y comprenderte yo
El amor,
es una gota con sabor a miel
es una lluvia en el atardecer
es un paraguas para dos
El amor,
es un espacio donde no hay lugar
para otra cosa que no sea amar
es algo entre tu y yo
el amor es llorar cuando nos dice adios
el amor es soñar oyendo una cancion
el amor es besar poniendo el corazon
es perdonarme tu y comprenderte yo
el amor es parar el tiempo en un reloj
es buscar un lugar donde escuchar tu voz
el amor es crear un mundo entre los dos
es perdonarme tu y comprenderte yo
Quarta-feira, Setembro 30, 2009
No tempo dos segredos!
Tenho tanto para dizer e esqueci-me das palavras...foram-se perdendo a pouco e pouco e hoje por mais que tente não me consigo lembrar...ou será que apenas me fogem e já não tenho força para as segurar?
Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
E o que nos ficou não chega
Para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
Gastámos as mãos à força de as apertarmos,
Gastámos o relógio e as pedras das esquinas
Em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro,
Era como se todas as coisas fossem minhas:
Quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
Porque ao teu lado
Todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
Era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
Era no tempo em que meus olhos
Eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
Uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
Já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
Tenho a certeza
De que todas as coisas estremeciam
Só de murmurar o teu nome
No silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade, Os Amantes sem Dinheiro



